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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Gustavo Dudamel: "A música pode salvar o mundo"

Gustavo Dudamel em um ensaio da Orquestra Jovem Simon Bolívar

Músico erudito com pinta de astro pop parece uma contradição nos termos. Mas o jovem maestro venezuelano Gustavo Dudamel, de 30 anos, faz sucesso justamente por evocar astros do romantismo europeu. No pódio, exibe a cabeleira esvoaçante de Franz Liszt, os gestos extravagantes de Hector Berlioz e o talento para a liderança de Arturo Toscanini. Tais qualidades fizeram dele o maestro mais festejado da atualidade. Seus concertos tornaram-se eventos comparáveis a shows de música pop – sem prejuízo da qualidade, pois Dudamel é perfeccionista. 

Nesta entrevista, concedida por telefone, ele conta como começou, ainda menino, na orquestra que hoje dirige e se tornou símbolo de educação musical. O chamado Sistema, criado há 30 anos pelo mentor de Dudamel, o maestro José Antonio Abreu, desenvolveu um método de inclusão social de crianças carentes, que Dudamel divulga pelo mundo. De Caracas, no início de sua primeira turnê pela América do Sul, à frente da Orquestra Sinfônica da Juventude Venezuelana Simón Bolívar.
   Divulgação

QUEM É? Nasceu em Barquisimeto, Venezuela, em 26 de janeiro de 1981, filho de músicos. É casado com Eloisa Maturén e tem um filho, Martín, de 2 meses

O QUE FEZ? Aos 7 anos, foi violinista da Orquestra Simón Bolívar. Aos 18, diretor da orquestra. Dirige as orquestras Simón Bolívar, Sinfônica de Gotemburgo, da Suécia, e Filarmônica de Los Angeles

O QUE APRESENTA? Na turnê, toca obras de Mahler, Ravel e Carlos Chávez. Em São Paulo (20 e 21) e no Rio de Janeiro (22 e 23)

Quando o senhor esteve no Brasil, em 2001, não passava de um menino. Como é voltar ao país como astro internacional?

Gustavo Dudamel – Sou parte do Sistema, um projeto que mudou a vida de muitas crianças – e mudou a minha junto. Faço parte de um grupo que surgiu, cresceu e se desenvolveu com o trabalho consistente do maestro Abreu. Comecei tocando violino na orquestra. Estudei, me esforcei e me tornei diretor artístico dela. Hoje quero ver o Sistema funcionando por toda parte. A emoção de apresentar nossa arte em um país irmão é intensa. Quando nos apresentamos em Brasília, dez anos atrás, ainda integrávamos uma orquestra infantil. Agora somos artistas consagrados. Estamos mostrando obras de compositores latino-americanos, como (o mexicano) Carlos Chávez e Villa-Lobos, mas também peças sinfônicas desafiadoras da tradição europeia. É o caso da Sinfonia no 7, de Gustav Mahler. É uma proeza, mas não me considero nela um astro solitário.

O senhor acha possível implementar um projeto de educação musical como o Sistema em outros países?

Dudamel – Sei que há vários projetos sociais que envolvem educação artística na América do Sul, no Brasil, por exemplo. Não encaro a inclusão social como uma necessidade apenas dos países pobres. As necessidades das crianças são as mesmas em toda parte. O anseio pela beleza acontece em Caracas, em Los Angeles e em Gotemburgo. Vivo nesses três mundos simultaneamente, e todos estão interligados. Tenho levado adiante experiências incríveis em todos esses lugares. E em muitos outros. A prática musical, e não apenas a audição, é um exercício de disciplina e liberdade. É algo essencial para a vida. Se o Sistema fosse implantado no Brasil, tenho certeza de que seria um sucesso, pois, afinal, é um país musical.

Qual é sua opinião sobre a obra do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos?

Dudamel – Para mim, Villa-Lobos é um dos grandes mestres, ao lado de Mahler e Stravinsky. Por isso, sempre tocamos as obras dele.

Qual é a função da música no mundo atual?

Dudamel – A música tem a missão de salvar o mundo. Estamos experimentando a degradação da sensibilidade – e só a música pode restituir a dignidade às pessoas. Todos têm direito à beleza. E não exatamente beleza material. Pode parecer romantismo, mas restabelecê-la é uma tarefa real.

"O maestro todo-poderoso é um modelo ultrapassado.
Só causa constrangimento e revolta"

O senhor contraria a imagem consagrada do maestro ditador. Qual é seu modelo de batuta?

Dudamel – O maestro todo-poderoso é um modelo ultrapassado. Já mostrou que só causa constrangimento e revolta. Houve grandes ditadores da batuta no passado, mas um de meus modelos é o regente italiano Arturo Toscanini. Dizem que ele era insuportavelmente rigoroso durante os ensaios. Toscanini era obcecado pela perfeição e pela fidelidade à partitura. Mas também tinha um coração de ouro, prestigiava seus músicos, fazia-os crescer profissionalmente e até os ajudava nos momentos difíceis. Sou um pouco diferente. Em todos os lugares onde atuo, procuro ser um músico como qualquer outro. O maestro atual deve incentivar, deve fazer parte da orquestra. Claro que sem abdicar da liderança. A capacidade de liderar, ensaiar e estimular os músicos é fundamental.

O que o senhor persegue como artista?

Dudamel – Acho que todo músico, e aí incluo a figura do maestro, deve buscar oferecer sua concepção sobre determinada obra. Uma visão que renove e torne a obra surpreendente aos ouvidos do grande público. E que se distinga da abordagem de outros regentes. Perseguir a originalidade é manter a tradição pulsante. Se o maestro não fizer isso, estará apenas repetindo regras, e não fazendo arte.

Como o senhor faz para dividir sua vida entre Los Angeles, Caracas e Gotemburgo?

Dudamel – O entusiasmo e a confiança que gozo das orquestras com que trabalho me tornaram incansável! Além disso, é fascinante observar as diferenças entre as três culturas. Os modos de executar, de ouvir música e até de se comportar em público são muito diferentes. O divertido é levar e trazer informações e lições.

Quais são os desafios do maestro neste início de século XXI?

Dudamel – A música clássica sempre teve seu ritual, sua hierarquia, seu modo de produção, que é idêntico em toda parte. Mas até esses rituais têm mudado. Nesse processo, é preciso quebrar a rotina, levar as pessoas às salas de concerto e os jovens a praticar música. Não importa se a maior parte deles não vai seguir carreira musical. O contato com a arte fará deles cidadãos melhores.

Entrevista feita pela revista Época

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O milagre venezuelano: O "Sistema" oferece perspectivas mais amplas a crianças e jovens que aprendem música erudita

Gustavo Dudamel em um ensaio da Orquestra Jovem Simon Bolívar: gravações elogiadas no mundo todo e uma execução polêmica do Hino Nacional
Luz Ramirez, de 11 anos, e Genesis da Silva, de 14, vivem em bairros pobres e assolados pelo crime em Caracas, a capital mais violenta da América do Sul: segundo as estatísticas oficiais, provavelmente maquiadas, há 130 assassinatos para cada 100 000 pessoas (o índice no Rio de Janeiro, por exemplo, é de 34 para cada 100 000). Luz é da favela de Antimano, e Genesis mora em Sarría, bairro onde imperam os traficantes. Ambas falam em seguir carreira na música. No subúrbio latino-americano típico, esse seria apenas um sonho irreal. Para Luz e Genesis, porém, trata-se de um plano factível. 

Elas são revelações de um projeto social que, há mais de trinta anos, vem arrancando jovens da pobreza com o auxílio de Bach, Beethoven e Mozart. Atendidas pelo Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela – mais conhecido simplesmente como El Sistema –, as duas garotas estão bem avançadas no aprendizado de seus instrumentos. Luz é primeiro-violino de uma orquestra do Centro Acadêmico Infantil de Montalbán. Genesis toca clarinete no Núcleo Infantil de Sarría, e seu talento despertou a atenção do clarinetista venezuelano Jorge Montilla – que, radicado nos Estados Unidos, visita seu país natal periodicamente para dar aulas a alunos que considera promissores. 

Criado em 1975 pelo maestro e economista José Antonio Abreu, o Sistema conta hoje com 250 000 estudantes em toda a Venezuela, 90% deles vindos de comunidades carentes. Seus objetivos são sociais – a música serve para ajudar crianças e adolescentes em situação precária –, mas o projeto também alcançou um notável sucesso artístico, formando artistas que tocam nas melhores orquestras do mundo – o celebrado maestro Gustavo Dudamel é seu mais reluzente garoto-propaganda. Na Venezuela cada vez mais caótica e autoritária de Hugo Chávez, o Sistema é uma rara instituição que merece ser copiada em outros países. "É o maior acontecimento da música clássica no mundo inteiro", já disse o maestro inglês Simon Rattle, diretor artístico da Filarmônica de Berlim.

Retirado da Revista Veja